Um som
envolvente ecoava pelos terreiros desde Brasil, atraindo milhares de pessoas do
simples ao abastado, do doutor ao iletrado, todos com suas aflições e dores
buscavam nas casinhas do tambor a orientação, e quem sabe a cura para seus
males.
Este movimento chamou a atenção de um jovem jornalista carioca chamado João do Rio, visitando tendas, terreiros e ylês, lançava semanalmente em sua coluna crônicas sobre este universo “não cristão”.
Este movimento chamou a atenção de um jovem jornalista carioca chamado João do Rio, visitando tendas, terreiros e ylês, lançava semanalmente em sua coluna crônicas sobre este universo “não cristão”.
Em 1906,
João d Rio lança seu centenário livro Religiões do Rio, que é uma junção de
seus textos e experiências. Lá encontramos relatos de várias vertentes
religiosas como o Catimbó, Macumba, Xangô, Candomblé e outras. Contudo, nada
consta sobre Umbanda.
Claro que não constaria. Talvez se ele tivesse esperado mais dois anos lá estaria alguma citação, provavelmente da origem, Zélio Fernandino de Moraes, o fundador da Umbanda.
Claro que não constaria. Talvez se ele tivesse esperado mais dois anos lá estaria alguma citação, provavelmente da origem, Zélio Fernandino de Moraes, o fundador da Umbanda.
Por outro
lado, penso que assim tinha que ser, porque ainda hoje, 100 anos após a
fundação desta religião, temos uma comprovação histórica da veracidade deste
fato, ainda que muitos queiram falar ser a Umbanda originária disto ou daquilo,
até mesmo que seja milenar.
Vamos aos
fatos históricos. Relatados ao mundo por Pai Ronaldo Linares, pois recebeste
esta incumbência do próprio Zélio.
Em 1908,
um jovem carioca de 17 anos, se preparava para ingressar na Marinha. De família
tradicionalmente católica, seguia sua fé como mandava o figurino. Eis que num
determinado momento este jovem começa a ter atitudes e posturas estranhas. Por
vezes se posicionava como um velho de linguajar precário e falava sobre ervas e
remédios naturais, ora se mantinha como um jovem cheio de vigor e agilidade.
Estes
fenômenos começaram a assustar sua família. Sua carinhosa mãe começou a via
sacra em busca da cura para o filho que julgava estar louco.
Foi
quando sua mão o encaminhou para o tio médico, Dr. Epaminondas de Moraes,
psiquiatra e diretor do Hospício da Vargem Grande. Após vários dias de
observação e exames, não encontrando nada parecido na literatura médica da
época, sugeriu à mãe do garoto que o levasse até um padre para fazer exorcismo,
pois entendia que o mesmo sofria de uma possessão demoníaca.
Mais um
tio de Zélio foi chamado, era padre e acompanhado de outros sacerdotes realizou
três exorcismos, no entanto, os “ataques” prosseguiram deixando a família
desolada.
Passado
um tempo, Zélio foi tomado por uma paralisia parcial, não explicada pelos
médicos, vez que não se mostrava nenhuma enfermidade. Certo dia Zélio acorda em
seu leito e diz:
- Amanhã
estarei curado!
No dia
seguinte começou a andar como se nada tivesse acontecido e detalhe, não houve
atrofiamento muscular, como é típico em alguém que fica muito tempo deitado.
Sua mãe
foi aconselhada a procurar um centro espírita, de pronto negou-se, pois entendia
que ele deveria ser curado na sua religião e não tinha que se envolver com
estas “coisas de espíritos”.
Mas teve
que render-se, foi então que procurou a recém fundada Federação Kardecista de
Niterói, cidade vizinha de São Gonçalo das Neves, onde residia a família
Moraes. A Federação era então presidida pelo senhor José de Sousa, chefe de um
departamento da marinha chamado Toque Toque.
Zélio
Fernandino de Moraes foi conduzido aquela Federação no dia 15 de Novembro de
1908, na presença do senhor José de Sousa, em meio aos ataques reconhecidos
como manifestações mediúnicas. Convidado, sentou-se a mesa e logo em seguida
levantou-se, afirmando que ali faltava uma flor. Foi até o jardim e apanhou uma
rosa branca e colocou-a no centro da mesa onde se realizava o trabalho. Tal
iniciativa contrariou todas as normas da instituição o que causou certo tumulto
e discussão. Após os ânimos se acalmarem, Zélio foi “tomado” por uma entidade.
José de
Sousa, que possuía também a clarividência, verificou a presença de um espírito
manifestado através de Zélio e passou ao dialogo a seguir: (este texto abaixo
foi extraído das Apostilas do Curso de Formação Sacerdotal da FEDERAÇÃO
UMBANDISTA DO GRANDE “ABC” e confirmado de forma presencial pelas turmas do 1º
ao 4º Barco, ministrado por Pai Ronaldo Linares, na ocasião estes tiveram
contato pessoal com Zélio).
“Senhor
José: Quem é você que ocupa o corpo deste jovem?
O
Espírito: Eu? Eu sou apenas um caboclo brasileiro.
Senhor
José: Você se identifica como caboclo, mas vejo em você restos de vestes
clericais!
O
Espírito: O que você vê em mim, são restos de uma existência anterior. Fui
padre, meu nome era Gabriel Malagrida, acusado de bruxaria fui sacrificado na
fogueira da inquisição por haver previsto o terremoto que destruiu Lisboa em
1755. Mas em minha última existência física Deus concedeu-me o privilégio de
nascer como um caboclo brasileiro.
Senhor
José: Porque o irmão fala nesses termos, pretendendo que esta mesa aceite a
manifestação de espíritos que pelo grau de cultura que tiveram, quando
encarnados são claramente atrasados? E qual é o seu nome irmão?
O
Espírito: Se, julgam atrasados esses espíritos de pretos e dos índios, devo
dizer que amanhã estarei na casa deste aparelho (o médium Zélio) para dar
início a um culto em que esses pretos e esses índios poderão dar a sua
mensagem, e assim, cumprir a missão que o plano espiritual lhes confiou. Será
uma religião que falará aos humildes, simbolizando a igualdade, que deve
existir entre todos os irmãos encarnados e desencarnados. E se querem saber o
meu nome, que seja este: “Caboclo das Sete Encruzilhadas”, porque não haverá
caminhos fechados para mim. Venho trazer a Umbanda, uma religião que
harmonizará as famílias e que há de perdurar até o final dos séculos.
Senhor
José: Julga o irmão que alguém irá assistir ao seu culto?
O
Espírito: Cada colina de Niterói atuará como porta-voz, anunciando o culto que
amanhã iniciarei.
No
desenrola da conversa senhor José pergunta se já não existem religiões
suficientes, fazendo inclusive menção ao espiritismo.
O
Espírito: Deus, em sua infinita bondade, estabeleceu na morte, o grande
nivelador universal, rico ou pobre, poderoso ou humilde, todos tornam-se iguais
na morte, mas vocês homens preconceituosos, não contentes em estabelecer
diferenças entre os vivos, procuram levar estas mesmas diferenças até mesmo
além da barreira da morte. Por que não podem nos visitar estes humildes
trabalhadores do espaço, se apesar de não haverem sido pessoas importantes na
Terra, também trazem importantes mensagens do além? Porque o não aos caboclos e
pretos velhos? Acaso não foram eles também filhos do mesmo Deus? Amanhã, na
casa onde meu aparelho mora, haverá uma mesa posta a toda e qualquer entidade
que queira ou precise se manifestar, independente daquilo que haja sido em
vida, todos serão ouvidos, nós aprenderemos com aqueles espíritos que souberem
mais e ensinaremos aqueles que souberem menos e a nenhum viraremos as costas a
nenhum diremos não, pois esta é a vontade do Pai.
Senhor
José: E que nome darão a esta Igreja?
O
Espírito: Tenda Nossa Senhora da Piedade, pois da mesma forma que Maria ampara
nos braços o filho querido, também serão amparados os que se socorrerem da
Umbanda.”
Zélio de
Moraes contou que no dia seguinte, 16 de novembro, ocorreu o seguinte:
-Minha família
estava apavorada. Eu mesmo não sabia explicar o que se passava comigo.
Surpreendia-me haver dialogado com aqueles austeros senhores de cabeça branca,
em volta de uma mesa onde se praticava para mim um trabalho desconhecido.
Como
poderia, aos dezessete anos, organizar um culto? No entanto eu mesmo falara,
sem saber o que dizia e por que dizia. Era uma sensação estranha: uma força
superior que me impelia a fazer e a dizer o que nem sequer passava pelo meu
pensamento.
- E, no
dia seguinte em casa de minha família, na Rua Floriano Peixoto, 30, em Neves,
ao se aproximar à hora marcada, 20 horas, já se reuniam os membros da Federação
Espírita, seguramente para comprovar a veracidade dos fatos que foram
declarados na véspera, os parentes mais chegados, amigos, vizinhos e, do lado
de fora, grande número de desconhecidos.
Pontualmente
às 20:00 horas o Caboclo das Sete Encruzilhadas incorporou e com as palavras
abaixo iniciou seu culto:
- Vim
para fundar a Umbanda no Brasil, aqui inicia-se um novo culto em que os
espíritos de pretos velhos africanos e os índios nativos de nossa terra,
poderão trabalhar em benefício dos seus irmãos encarnados, qualquer que seja a
cor, raça, credo ou posição social. A prática da caridade no sentido do amor
fraterno, será a característica principal deste culto.
O Caboclo
estabeleceu as normas do culto: sessões, assim se chamariam os períodos de
trabalho espiritual, diárias das 20 às 22 horas, os participantes estariam
uniformizados de branco e o atendimento seria gratuito.
Ditadas as
bases do culto, após responder, em latim e em alemão às perguntas dos
sacerdotes ali presentes, o Caboclo das Sete Encruzilhadas passou à parte
prática dos trabalhos, curando enfermos e fazendo andar aleijados.
Após a
“subida” do Caboclo, manisfestou-se uma entidade conhecida como “preto velho”
que saindo da mesa se dirigiu a um canto da sala onde permaneceu agachado.
Questionado sobre o porque de não ficar na mesa respondeu:
- “Nego
num senta não meu sinhô, nego fica aqui mesmo. Isso é coisa de sinhô branco e
nego deve arrespeita.”
Após insistência ainda completou:
Após insistência ainda completou:
-“ Num
carece preocupa não, nego fica no toco que é lugar de nego.”
E assim
continuou dizendo outras coisas mostrando a simplicidade, humildade e mansidão
daquele que trazendo o estereótipo do preto velho, se identificou como Pai
Antônio e logo cativou a todos com seu jeito. Ainda lhe perguntaram se ele não
aceitava nenhum agrado, ao que respondeu:
-“Minha
cachimba, nego qué o pito que dexo no toco, manda moleque busca”.
Esta
frase originou o ponto cantado com esse texto.
Todos
ficaram perplexos, estavam presenciando à solicitação do primeiro elemento
material de trabalho dentro da Umbanda. Na semana seguinte todos trouxeram
cachimbos que sobraram diante da necessidade de apenas um para o Pai Antônio.
Assim, o cachimbo foi instituído na linha dos pretos velhos. Pai Antônio também
foi a primeira entidade a pedir uma guia(colar) de trabalho.
O Pai de
Zélio frequentemente era abordado por pessoas que queriam saber como ele
aceitava tudo isso que vinha acontecendo em sua residência. Sua resposta era
sempre a mesma, em tom de brincadeira respondia que preferia um filho médium em
lugar de um filho louco. Foi um trabalho árduo e incessante para o
esclarecimento, difusão e sedimentação da Umbanda.
Dez anos
após a fundação da Tenda Nossa Senhora da Piedade (registrada como tenta
Espírita, porque não ser aceito na época o registro de uma entidade com
especificação de Umbanda), o Caboclo das Sete Encruzilhadas declarou que
iniciava a segunda parte de sua missão: a criação de sete templos, que seriam o
núcleo do qual se propagaria a religião da Umbanda.
Em 1935,
estava fundados os sete templos idealizados pelo Caboclo das Sete
Encruzilhadas, sendo curiosa a fundação do sétimo, que receberia o nome de
Tenda São Jerônimo (a casa de Xangô). Faltava um dirigente adequado a mesma,
quando numa noite de quinta-feira, José Álvares Pessoa, espírita e estudioso de
todos os ramos de espiritualismo, não dando muito crédito ao que lhe relatavam
sobre as maravilhas ocorridas em Neves, resolveu verificar pessoalmente o que
se passava.
Logo que
entrou na sala em que se reuniam os discípulos do Caboclo da Sete
Encruzilhadas, este interrompeu a palestra e disse:
-Já
podemos fundar a Tenda São Jerônimo e seu dirigente acaba de chegar.
O senhor
Pessoa ficou muito surpreso, pois era desconhecido no ambiente e não anunciara
a sua vista.
Viera
apenas verificar a veracidade do que lhe narravam. Após breve diálogo em que o
Caboclo das Sete Encruzilhadas demonstrou conhecer a fundo o visitante, José
Álvares Pessoa assumiu a responsabilidade de dirigir o último dos sete templos
que a entidade criava.
Dezenas
de templos e tendas, porém seriam criados posteriormente, sob a orientação
direta ou indireta do Caboclo das Sete Encruzilhadas. Em 1939, o Caboclo das
Sete Encruzilhadas determinou a fundação da uma Federação (posteriormente
denominada de União Espírita de Umbanda do Brasil, segundo relata Seleções de
Umbanda nº 7 1975) para congregar templos Umbandistas e ser o núcleo central
deste culto, no qual o simples uniforme branco de algodão dos médiuns
estabelece a igualdade de classe e a simplicidade permitida pelo ritual.
Enquanto
Zélio esteve encarnado foram fundadas mais de 10.000 tendas. Após 55 anos de
atividades este entregou a direção dos trabalhos da Tenda Nossa Senhora da
Piedade à suas filhas Zélia e Zilméia. Mais tarde junto com sua esposa Maria
Elizabete de Moraes, médium ativa da tenda e aparelho do Caboclo Roxo fundou a
cabana de Pai Antônio no distrito de Boca do Mato, município de Cachoeiras do
Macacu – RJ.
Zélio
Fernandino de Moraes desencarnou no dia 03 de outubro de 1975.
A
cerimônia fúnebre de Zélio foi celebrada por Pai Ronaldo Linares a pedido de
seus família.
Suas
filhas deram continuidade ao trabalho e a “Tenda Nossa Senhora da Piedade”
existe até hoje sob a direção de Zilméia de Moraes.
Nesta
história temos o fato histórico da primeira manifestação da Umbanda, o momento
em que um Caboclo manifesta-se em uma vertente diferente das conhecidas
afro-brasileiras. Pois é, Caboclos e Pretos Velhos já se manifestavam nos
terreiros de Catimbó, de Macumba Carioca, e outros. Ficou a cargo do Caboclo
das Sete Encruzilhadas a separação do joio e do trigo. As manifestações
espirituais começaram a se focar na Umbanda, o que facilitou a criação de sua
identidade.
Alguns
estudiosos defendem que a origem da Umbanda não seria no Brasil, e sim uma
ramificação de outros cultos africanos, outras linhas de estudos apontam que
ela se originou na Lemuria e Atlântida, vindo a se representar no Brasil na
Data citada.
Veja o
que Pai Ronaldo Linares, Sacerdote de Umbanda e presidente da Federação
Umbandista do Grande ABC, comenta numa entrevista concedida a TV Umbanda
Sagrada, ressaltando que Pai Ronaldo conviveu com Zélio, o qual o delegou a
função de fazer ser conhecida a história do nascimento da Umbanda.
-“ Há um
pouco de desinformação, também houve um tempo em que se quis “branquear” a
Umbanda, levando a ver que ela se originaria do Hinduísmo, ou do Egito Antigo,
enfim... Porém eu fiz uma pesquisa séria aliada a outras e ao que tudo indica
não existia nenhuma tenda ou segmento religioso que usasse o nome Umbanda antes
de 1908. A
Umbanda é um pouco negra, um pouco indígena, um pouco branca, temperada com
tudo que faz parte de povo brasileiro. O vocábulo Umbanda é africano, e daí? Se
50% da população brasileira é negra e mistos?
Não creio
na teoria da Umbanda quadrimilenar, pra mim, Umbanda é o Preto Velho, o Caboclo
e a Criança, como ensinou Papai Zélio...”
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